{"id":1079,"date":"2018-12-20T19:46:57","date_gmt":"2018-12-20T19:46:57","guid":{"rendered":"https:\/\/passda.pt\/?p=1079"},"modified":"2025-07-08T18:26:54","modified_gmt":"2025-07-08T18:26:54","slug":"imigracao-o-que-pensam-os-europeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/imigracao-o-que-pensam-os-europeus\/","title":{"rendered":"Imigra\u00e7\u00e3o: o que pensam os europeus?"},"content":{"rendered":"<p>Por <strong><a href=\"\/?p=201\">Alice Ramos<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria recente da Europa tem sido marcada por altera\u00e7\u00f5es profundas nas din\u00e2micas migrat\u00f3rias. De acordo com o <em>International Migration Report<\/em> das Na\u00e7\u00f5es Unidas (2017), o n\u00famero de pessoas que se movimentam por todo o mundo n\u00e3o para de aumentar e a Europa tem sido um palco particularmente intenso destes fluxos migrat\u00f3rios, com contextos e causas muito diferentes. A fuga de capital humano especializado na sequ\u00eancia da crise econ\u00f3mica, o retorno de muitos imigrantes aos seus pa\u00edses de origem na sequ\u00eancia da crise econ\u00f3mica, bem como o drama vivido pelos refugiados, originaram mudan\u00e7as sociais que de uma forma ou de outra, com maior ou menor intensidade, influenciaram o dia-a-dia do cidad\u00e3o comum e agitaram as suas cren\u00e7as e opini\u00f5es sobre o assunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Paralelamente a estas mudan\u00e7as, assistimos \u00e0 emerg\u00eancia de posi\u00e7\u00f5es ambivalentes relativamente \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o e aos imigrantes. Ao mesmo tempo que o discurso do igualitarismo e da solidariedade promove o esp\u00edrito de ajuda e apela \u00e0 capacidade de acolhimento dos pa\u00edses europeus, o discurso contra a imigra\u00e7\u00e3o e os imigrantes, frequentemente associado ao elogio da na\u00e7\u00e3o, assume contornos de uma viol\u00eancia extrema. Viktor Orb\u00e1n, primeiro-ministro h\u00fangaro desde 2010, \u00e9 talvez a face mais vis\u00edvel deste discurso de incitamento ao \u00f3dio que, como veremos, encontra eco numa parte significativa da popula\u00e7\u00e3o h\u00fangara. As suas declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas incitando ao \u00f3dio e ao medo &#8211; \u201c<em>Migration is dangerous to public security, to our welfare and to the European Christian culture<\/em>\u201d, \u201c<em>We don\u2019t see these people as Muslim refugees. We see them as Muslim invaders<\/em>\u201d &#8211; ou associando a Democracia \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o de imigrantes \u2013 \u201c<em>Democracy was reinstalled as Austrians who do not want immigration elected a governement which also opposes to immigration. This will be the same everywhere in Europe, I believe this is only a matter of time<\/em>\u201d &#8211; s\u00e3o, por exemplo, partilhadas por Milos Zeman, presidente da Rep\u00fablica Checa desde 2013, ou por P\u00e9ter Szijj\u00e1rt\u00f3, ministro dos neg\u00f3cios estrangeiros da Hungria que \u00e9 perempt\u00f3rio ao afirmar que os europeus n\u00e3o querem a imigra\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 mesmo assim?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os dados do <em>European Social Survey<\/em> mostram, apesar de tudo, um panorama bem distinto. Para percebermos o que pensam os europeus, compar\u00e1mos dados da primeira Ronda do ESS (recolhidos em 2002\/03) com dados da Ronda 7 (2014\/15) e da Ronda 8 (2016\/17). Desta forma, pudemos ver n\u00e3o s\u00f3 as opini\u00f5es dos europeus, como identificar mudan\u00e7as no tempo e o sentido dessas mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>1. Quem n\u00e3o pode entrar? <\/em><\/strong><\/p>\n<p>O ESS contempla habitualmente tr\u00eas perguntas para avaliar a opini\u00e3o relativamente \u00e0 permissividade dos residentes em cada pa\u00eds no que se refere \u00e0 entrada de pessoas: a) de ra\u00e7a ou grupo \u00e9tnico diferente do que a maioria do [pa\u00eds]; b) da mesma ra\u00e7a ou grupo \u00e9tnico que a maioria do [pa\u00eds]; c) dos pa\u00edses mais pobres fora da Europa. A resposta \u00e9 dada numa escala de 4 pontos (1- deve deixar vir muitas pessoas; 2-deve deixar vir algumas pessoas; 3-deve deixar vir poucas pessoas; 4-n\u00e3o deve deixar vir ningu\u00e9m)- As respostas mostram uma distin\u00e7\u00e3o entre um dos grupos (pessoas da mesma ra\u00e7a\/grupo \u00e9tnico) e os outros dois (pessoas de ra\u00e7a\/grupo \u00e9tnico diferente e pessoas provenientes dos pa\u00edses europeus mais pobres) (Gr\u00e1fico 1). Os resultados apresentados referem-se \u00e0 Ronda 8, mas este \u00e9 um padr\u00e3o que temos vindo a observar consistentemente desde 2002\/03.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Gr\u00e1fico 1- Abertura\/Oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada de diferentes grupos de imigrantes<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1080\" src=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-1-alice.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-1-alice.png 600w, https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-1-alice-300x216.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dada a semelhan\u00e7a do padr\u00e3o de resposta aos dois \u00faltimos grupos constru\u00edmos um \u00edndice de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o que, de um modo geral, representa o atual perfil de quem procura a Europa para trabalhar e viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. Quantos podem entrar?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se considerarmos o conjunto dos 17 pa\u00edses, os dados revelam uma opini\u00e3o est\u00e1vel, coincidente com o ponto m\u00e9dio da escala (2.5).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Gr\u00e1fico 2- Evolu\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o na Europa<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1082\" src=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-2-alice.png\" alt=\"\" width=\"544\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-2-alice.png 544w, https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-2-alice-300x164.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 544px) 100vw, 544px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas esta aparente estabilidade esconde mudan\u00e7as com um significado muito importante. Este padr\u00e3o de estabilidade apenas se encontra na Eslov\u00e9nia, que n\u00e3o registou mudan\u00e7as estatisticamente significativas entre 2002\/03 e 2016\/17. Os pa\u00edses onde se registam os maiores aumentos correspondem \u00e0queles onde o discurso pol\u00edtico de avers\u00e3o aos imigrantes e \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o tem sido mais incisivo. Hungria e Rep\u00fablica Checa, que desde 2002\/03 j\u00e1 vinham a registar um aumento sistem\u00e1tico de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o com valores superiores \u00e0 m\u00e9dia europeia, atingem em 2016\/17 os valores de oposi\u00e7\u00e3o mais elevados no conjunto dos pa\u00edses analisados. Nesta mesma ronda do ESS, observamos tamb\u00e9m um aumento de oposi\u00e7\u00e3o na \u00c1ustria e na Pol\u00f3nia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Metade dos pa\u00edses analisados contrariam esta tend\u00eancia. Holanda, Noruega e Portugal apresentam uma queda sistem\u00e1tica de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o; e se os dois primeiros sempre estiveram abaixo da m\u00e9dia Europeia, Portugal junta-se a eles pela primeira vez em 2016\/17. A Alemanha, que em 2002\/03 estava no ponto m\u00e9dio da escala, baixou em 2014\/15 para uma posi\u00e7\u00e3o de maior abertura \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m na \u00faltima ronda do ESS.\u00a0O gr\u00e1fico 3 resume a varia\u00e7\u00e3o registada nos diferentes pa\u00edses entre 2014\/15 e 2016\/17.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Gr\u00e1fico 3-Diferen\u00e7a de m\u00e9dias na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o no ESS7 (2014\/15) e no ESS8 (2016\/17)<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1084\" src=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-3-alice.png\" alt=\"\" width=\"732\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-3-alice.png 732w, https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-3-alice-300x199.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 732px) 100vw, 732px\" \/><\/p>\n<p>A conclus\u00e3o mais importante que retiramos desta an\u00e1lise \u00e9 que s\u00e3o mais os pa\u00edses em que a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o diminuiu do que aqueles em que aumentou. Portugal foi o pa\u00eds onde se registou a maior mudan\u00e7a no sentido da abertura \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, seguido pelo Reino Unido. Hungria e Pol\u00f3nia, encontram-se no polo oposto tendo registado o maior aumento no sentido da rejei\u00e7\u00e3o de imigrantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estes dados tornam-se ainda mais interessantes se os compararmos com as percep\u00e7\u00f5es sobre a presen\u00e7a de imigrantes em cada pa\u00eds. O gr\u00e1fico 4 evidencia a diferen\u00e7a que existe entre a realidade e a forma como ela \u00e9 percepcionada. Portugal e Reino Unido s\u00e3o dois dos pa\u00edses onde esta diferen\u00e7a \u00e9 maior, o que de certa forma contraria o argumento de que a atitude dos Portuguese se deve \u00e0 fraca presen\u00e7a de imigrantes no pa\u00eds. A verdade \u00e9 que apesar de, em 2014, a popula\u00e7\u00e3o residente nascida noutro pa\u00eds representar apenas 8%, os portugueses achavam que, em m\u00e9dia, este grupo de pessoas correspondia a 24% da popula\u00e7\u00e3o. Esta percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o os impediu de responderem que Portugal devia estar aberto a receber mais imigrantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Gr\u00e1fico 4 \u2013 Popula\u00e7\u00e3o estrangeira residente: dados oficiais e percep\u00e7\u00f5es subjetivas (2014)<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1086\" src=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-4-alice.png\" alt=\"\" width=\"865\" height=\"860\" srcset=\"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-4-alice.png 865w, https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-4-alice-150x150.png 150w, https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-4-alice-300x298.png 300w, https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/grfico-4-alice-768x764.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 865px) 100vw, 865px\" \/><\/p>\n<p>Uma vez que esta disparidade entre realidade objectiva e percep\u00e7\u00e3o subjetiva ocorre, com maior ou menos intensidade, em todos os pa\u00edses, outras raz\u00f5es haver\u00e1, para al\u00e9m da presen\u00e7a de imigrantes, que expliquem as diferentes atitudes de abertura\/oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o observadas entre pa\u00edses.\u00a0 Em breve abordaremos uma \u00a0dessas poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es: as percep\u00e7\u00f5es de amea\u00e7a realista e simb\u00f3lica associadas aos imigrantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es dos europeus acerca da imigra\u00e7\u00e3o, com base dos dados do Inqu\u00e9rito Social Europeu.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":1080,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49,45,48],"tags":[],"class_list":["post-1079","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-european-social-survey","category-geral","category-inquerito-social-europeu"],"publishpress_future_action":{"enabled":false,"date":"2026-06-12 20:48:21","action":"change-status","newStatus":"draft","terms":[],"taxonomy":"category","extraData":[]},"publishpress_future_workflow_manual_trigger":{"enabledWorkflows":[]},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1079","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1079"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1079\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1097,"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1079\/revisions\/1097"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1080"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/passda.pt\/webwp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}